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Nós – Omelete

Quando lançou Corra!, Jordan Peele, que antes era conhecido por trabalhos mais cômicos, entrou no hall dos queridinhos de hollywood com justiça. O horror tem como característica narrativa o comentário social por meio do medo, mas o cineasta modernizou o conceito com toques de humor e tocou em questões raciais com precisão cirúrgica. Em Nós, todas essas iniciativas são levadas a um novo nível, o que mostra um diretor sem amarras, confiante na própria visão, mas ainda em busca de equilíbrio nesta mistura de gêneros como comédia e horror.

A premissa do filme, que coloca uma família negra enfrentando cópias de seus membros em uma casa, evoca imediatamente a discussão de combater demônios interiores. Contudo, o roteiro vai além disso. Em determinada cena, a primeira do enfrentamento entre as famílias, Peele filma a brutalidade dos vermelhos (invasores) de forma mais acelerada e com iluminação baixa de forma proposital, escondendo ali um mistério já sabido pela audiência, mas que ela tende a não acreditar – assim como evita seus próprios defeitos.

A inversão de conceitos também é mostrada entre os protagonistas, já que Nós faz piada boa parte do tempo com o papel do homem em situações que exigem a teórica presença masculina, e Winston Duke incorpora perfeitamente a essência do líder caricato proposta por Peele. As mulheres assumem o papel principal na ação, no horror e na explicação da distopia sugerida pelo filme – tudo isso na figura de Lupita Nyong’o, que se transforma completamente dependendo da personagem que interpreta. O elenco como um todo entrega sem ressalvas o texto cômico e o horror desconfortável do suspense de Peele; Elisabeth Moss, aliás, mais uma vez comprova quão versátil e talentosa é com poucos minutos de tela.

Apesar dos comentários sobre segregação e privilégios serem óbvios, Nós busca uma explicação mais profunda no terceiro ato, que se distancia dos comentários sobre racismo tão aguardados nos filmes do diretor. A provocação está lá, mas muito como um dedo apontado para toda sociedade atual, que parece preferir discutir os defeitos dos outros do que enxergar as próprias falhas. A materialização disso vem em uma sequência final digna de episódios de Black Mirror ou Além da Imaginação (que não por acaso ganhará uma nova versão pelas mãos de Peele).

Apesar de insistir em planos e explicações para a resolução de seus protagonistas de forma desnecessária, Nós é intrigante e divertido sem soar pedante ou didático demais. A “mitologia” aqui apresentada não é esmiuçada, tudo fica a cargo da audiência. E ainda que isso pareça contraditório, é exatamente essa situação de dúvida e mistura de riso e pavor que faz a identidade do longa. No fundo, com todas essas experimentações, Peele faz um entretenimento provocativo sem esquecer o poder dos comentários que traz dentro deste retrato de uma sociedade viciada nos próprios privilégios e sedenta por mantê-los a qualquer custo.

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