/Grande Círculo: Andrés Sanchez fala sobre “coisas estranhas” em Brasília e do peso de Ronaldo

Grande Círculo: Andrés Sanchez fala sobre “coisas estranhas” em Brasília e do peso de Ronaldo

O ex-deputado federal disse ter visto “coisas estranhas” por lá durante o seu mandato, mas negou ter testemunhado práticas de corrupção.

Andrés Sanchez também falou sobre o peso de Ronaldo em 2009 e contou seus planos para o futebol brasileiro: um dos objetivos que tem é o de diminuir para 16 o número de clubes da Série A do Brasileirão.

No Grande Círculo desta semana, Andrés foi sabatinado pelo narrador Luis Roberto, pelo comentarista Walter Casagrande Júnior e pelos jornalistas Ana Thaís Matos, Martín Fernandez, Mauro Naves e Pedro Bassan.




Grande Círculo - Andrés Sanchez - Bloco 2

Grande Círculo – Andrés Sanchez – Bloco 2

Confira abaixo a íntegra da entrevista:

Presidente, para a gente começar, eu queria que você olhasse no nosso telão, ali atrás, que nós vamos mostrar algumas imagens do senhor, por favor. Final de 2007, e o Corinthians rebaixado para Série B. Você tinha acabado de assumir o clube, né? E depois desse episódio o Corinthians foi três vezes campeão brasileiro, foi quatro vezes campeão paulista, ganhou Libertadores, ganhou Mundial, ganhou Copa do Brasil, Recopa, enfim. São muitos títulos, o Corinthians não cai mais, presidente?

Andrés Sanchez: Não. Depois que caiu o Corinthians, qualquer um pode cair, né? Mas não caiu naquele ano, o Corinthians já vinha com problema desde 2003 e 2004. Ninguém cai no mesmo ano, e isso é um problema do futebol brasileiro. Do Corinthians, eu não vou dizer que teria mudado se não tivesse caído. Mas as coisas que foram feitas, após a queda, foram muito mais fáceis e tranquilas do que se não tivesse caído, né? Porque quando você está por baixo, as pessoas que ficam em seu entorno e que ficam enchendo o saco, se afastam tudo, né? Quando você está ganhando, todo mundo vem próximo. O futebol tem essa vaidade, que é um grande problema.

Ana Thais Matos: Andrés, eu acho que sua imagem ficou associada nos últimos anos com a questão política do país, você é um dirigente de futebol, mas também saiu para essa parte da política, que você já falou mais de uma vez que arrependeu de ter entrado. Só que você conviveu com muitas pessoas que estão no poder agora, como o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que foi deputado no mesmo período que você. Queria que você falasse um pouquinho dessa nova política que está no Brasil agora.


Andrés:
Não é nova política, a política que está no Brasil é a mesma desde de depois da República. Se alguém acredita que vai, que é a nova política, é engano. Eu acho que são novas pessoas que podem melhorar ou piorar o país. E eu volto a dizer, não vou falar de corrupção, porque corrupção é uma coisa atípica, à parte, mas o sistema político brasileiro está falido. Você pode colocar o Papa Francisco para ser o presidente da república, se não tiver mudança de cultura, uma mudança de política, não vai mudar nada. Nós não vamos ver, espero que nossos filhos mudem. Eu fiquei muito decepcionado no Congresso, me arrependi realmente, mas aprendi muita coisa. E entendo também que a democracia sem os políticos e sem o Congresso Nacional não é uma democracia plena. Agora, tem que mudar o sistema, senão vamos ficar secando gelo.

Pedro Bassan: Presidente muita gente não sabe, mas o senhor jogou na base do Corinthians.

Andrés: O Casa jogou comigo.

Walter Casagrande: Verdade. Era quarto zagueiro.

Andrés: Mas eu tinha um problema, acordava quatro, cinco da manhã todo dia, para ir no Parque Dom Pedro trabalhar. Meus pais têm banca de frutas no Ceasa e eu tinha que trabalhar, né?

Mauro Naves: Chegava cansado para o treino?

Andrés: Eu nunca gostei de treinar, né? Você pega outro ritmo de vida, nego pensa que não, mas jogador tem que dedicar muito e perder muitas coisas na sua vida para se tornar jogador de futebol.

Pedro Bassan: Presidente, você decidiu por várias razões parar de jogar na defesa e, mais recentemente, seu nome foi envolvido em duas delações de executivos da Odebrecht, por ter recebido R$ 2 milhões e meio de propina. O senhor também foi alvo e tornou-se réu por crimes fiscais de suas empresas. O que é mais difícil? Defender o Corinthians ou se defender na presidência do Corinthians?

Andrés: Defender o Corinthians. Isso aí, infelizmente, as pessoas falam e vira verdade até você provar o contrário. Nem sócio da empresa eu era, era um primo meu, eu tinha uma sociedade com ele em outra empresa. Mas por eu ter sido presidente do Corinthians, deputado, eles jogaram tudo junto. Mas estamos nos defendendo. Sobre a delação, isso foi uma surpresa. Eu não pedi nada, eu não peguei nada, mas estamos nos defendendo, já era para ter até arquivado, mas está há quatro anos rolando.

Martín Fernandez: Presidente, em 2011, no final do seu mandato, você disse que o Corinthians seria um dos clubes mais ricos do mundo.

Andrés: Eu não falei isso. Falei que estaria entre os cinco mais ricos do mundo.

Martín Fernandez: O Corinthians está longe disso, como qualquer clube brasileiro. O que que deu errado na sua previsão? E qual a sua parcela de culpa nisso?

Andrés: Eu tenho parcela, como todos os dirigentes do Corinthians. Um dos problemas foi a Arena. A Arena metade o Corinthians pagava e metade era o incentivo fiscal da Prefeitura de São Paulo. Por mil razões, pelo incompetente e mentiroso prefeito (Fernando) Haddad, deu tudo errado e, obviamente, você não tem a receita do Estado. A receita do Estado é 150, 100 milhões por ano, e isso afetou e está afetando até hoje, mas faz parte. Os projetos são feitos, uns dão certo, outros dão errados, uns seguem um caminho, outros seguem outro.

Mauro Naves: Você se arrepende de ter feito a Arena?

Andrés: Para a Copa do Mundo, sim. Poderia ter um estádio sem as exigências de Copa do Mundo.

Mauro Naves: Por que fez? Para agradar os ex-presidente Lula?

Andrés: O Lula, na época, pode pegar aí, sempre defendeu meu governo, mas quem brigou para fazer o estádio foi o prefeito da época e o governador da época, que eram o Haddad e o (Gilberto) Kassab, que brigaram muito e pediram, porque, por mil razões, o Morumbi… Hoje falam que foi o Ricardo Teixeira, não foi. Para o Morumbi tinham que fazer uma assembleia de sócios e teria que ser fechado três ou quatro anos até a abertura da Copa, e nunca fizeram a assembleia, nunca fizeram a reunião e, por isso, não teve a Copa do Mundo no Morumbi.

Luis Roberto: Você disse que jamais voltaria a jogar no Morumbi como mandante, que o Corinthians iria ter a sua casa própria. Para muitos essa decisão mudou a vida do Corinthians. Você entende assim também?

Andrés: Entendo que essa decisão mudou muito a vida do São Paulo. A imprensa disse que iria perder o aluguel, mas isso é ridículo. O aluguel do Morumbi, da arena do Palmeiras ou do estádio do Corinthians é baratinho. O problema eram as cativas, que entregaram 60%, o problema era os camarotes, que nego não entregou. Tudo isso afetou financeiramente o São Paulo. Agora, o estádio do Corinthians iria ser feito de qualquer jeito, independente de Copa do Mundo, mas talvez não ia ser feito com a rapidez que foi feito pela Copa do Mundo. Então, é o que eu falo, se tiver alguma coisa errada, era uma autorização que demora um ano, dois anos para ser feita, levava cinco meses. Porque todos no Brasil queriam o estádio do Corinthians ou um estádio na cidade de São Paulo para a Copa do Mundo. Decisões políticas influenciam, o prefeito era de um partido, do PSD, o (ex-vice-governador Alberto) Goldman era do PSDB. Então, eu me relacionei com todos eles, me relaciono até hoje. O estádio está saindo com sofrimento para o corintiano e estamos dando duro para pagar. O estádio falaram que era de graça, que era presente do Lula, e agora dizem que não podemos pagar. O estádio está em dia, o Corinthians está pagando tudo. Foi falado que o Corinthians só assumiria R$ 400 milhões. O restante era a Prefeitura e o Governo do Estado. O Governo cumpriu, e a Prefeitura, do grande prefeito Haddad, o competente, não cumpriu o que era para ser feito. E ele era do meu partido.

Mauro Naves: Como você ficou no partido?

Andrés: Eu não tenho problema nenhum, não devo nada para ninguém. Se eu não puder falar o que eu penso, eu vou embora para casa, pô. Não to ofendendo ninguém, o que eu falo que ele mentiu, ele mentiu mesmo, ele me ameaçou então por quê? Os R$ 400 milhões eram o pré-Copa, que todos os estádios de Copa do mundo tinham direito de ter. Estou pagando, já paguei R$ 126 milhões. E o restante eram os R$ 420 milhões de CID (Certificados de Incentivo ao Desenvolvimento), pois o estado iria custar R$ 820 milhões e nós tínhamos R$ 420 milhões de CID. Mas o estádio custou R$ 965 milhões, pois estourou um pouco a obra. O prefeito demorou três anos e meio para monetizar os CIDs, então perdemos 80 e poucos milhões de correção. Quando ele liberou os CIDs, ele tirou do orçamento. Então, eu não tenho para vender. A Prefeitura tinha se comprometido a pagar os R$ 120 milhões do entorno do estádio, e o prefeito, de última hora, não cumpriu. Ele me chamou lá e falou: “Se não tiver abertura da Copa, não tem CID, então ou você assume R$ 120 milhões a mais ou perde R$ 420 milhões de CID. Eu tive que assumir esses R$ 120 milhões. Todos os empréstimos de Copa, seja caro ou barato, demoraram de 30 a 120 dias. O do Corinthians demorou dois anos e três meses para o BNDES liberar o dinheiro. Então tivemos que pagar R$ 86 milhões de juros, porque tinha só três anos para fazer o estádio. Então, teve que pegar dinheiro emprestado de outros. Tudo isso aí que as pessoas sabem, mas não podem falar.

Milton Leite: Nessa época da foto (com Haddad) estava tudo certo?

Andrés: Não gosto nem de ver essa foto, era só cumprir com o que tinha falado.

Mauro Naves: Como está sua relação com o Lula hoje?

Andrés: A mesma que a sua. O cara está preso, mas é meu amigo, gosto dele. Mas, se errou, que pague.

Casagrande: O que você achou dessa ação publicitária do “Corinthianismo”? E porque só depois que o Sócrates morreu o Corinthians começou a usar a imagem dele em ações publicitárias e todas outras coisas?

Andrés: Desde que eu assumi, tentei fazer ações com ele e com vários outros jogadores. São poucos ex-presidentes que ajudam tanto ex-jogador como eu ajudo. Estão aí vivos todos eles. Eu tive um problema com o Sócrates depois que eu assumi. Mais ainda nos falávamos, não quero dizer quem tinha razão e quem estava errado. Mas eu sempre procurei fazer tudo. Essa ação aí não foi o marketing do Corinthians que fez, foi a F/Nazca. Ele é parte, e o Luis Paulo Rosenberg, como diretor de marketing (na época) expôs isso.

Casagrande: O que você achou?

Andrés: Para mim, não me afeta em nada. Eu acho que tem coisas boas e coisas que não são muito boas.

Ana Thais: Em quem você votou para prefeito?

Andrés: Presta atenção: partido político é o seguinte, tem várias coisas lá que o PT votou a favor e eu contra, e teve várias coisas que eu votei a favor e eles contra. Se eu tiver que um dia fazer o que alguém mandar eu fazer, é o fim do mundo. Esse é o grande problema do país no mundo político. Vai um cara que é líder do partido e fala: “votem em A”, e todo mundo vai e voto em A? Não. Se sou eu, eu falo “não concordo, tem que ser B”. E eu votei muita coisa contra.

Pedro Bassan: Por que você quis ser candidato Andrés?

Andrés: Pois às vezes na vida você tem um caminho que você tem que seguir. Virei deputado e não fui forçado. Eu falei: serei reeleito, e não fui nem candidato. Falei desde de o primeiro dia que fui eleito e, agora, eu não fui.

Martín: Porque você não se licenciou, como prometeu durante a campanha à presidência do Corinthians?

Andrés: Eu não sou um cara tão estudioso. Até para você pedir licença o presidente da Câmara tem que aceitar. E quando eu falei de me licenciar, que eu fui lá pedir licença, já tinham três deputados brigando na Justiça para ver quem iria pegar minha vaga. E ele (Rodrigo Maia, presidente da Câmara) falou para mim: “Fica aí, faltam 10 meses.” Eu falei: “Então desconta os dias que eu não vier, desconta tudo que eu fico até o final do mandato.”

Casagrande: Como surgiu a ideia do plano Ronaldo? Como que foi essa história?

Andrés: Quem começou foram o Todé, o Djalminha e o Joaquim Grava.

Casagrande: Como foi a ideia?

Andrés: Me falaram: “Por que você não traz o Ronaldo?” Ai eu: “Como? Não tem dinheiro para pagar conta de luz, como vou trazer o Ronaldo? O time na segunda divisão, como vou trazer? Ele está há um ano e meio parado.” Aí o Joaquim foi ver o exames dele e disse que, se ele quisesse, ele voltava a jogar. Aí conversei com ele, fui na casa dele, ficaram lá brigando por um monte de coisa. E o dia que recebi o prêmio da CBF foi quando eu contratei o Ronaldo. Lógico que era um risco. Um dia ele falou assim pra mim: “O senhor é o único que não pergunta se eu vou jogar bola?” Eu disse: “Isso não é problema meu, o problema de jogar é seu. O meu é outro”.

Milton Leite: Ronaldo foi o seu grande acerto como dirigente do Corinthians?

Andrés: Não, acho que meu grande acerto foi fazer o CT do profissional e mudar o estatuto para eleição.

Milton Leite: O Ronaldo foi um divisor de águas?

Andrés: O Corinthians não precisava para nada do Ronaldo no Brasil, mas sim para fora. O Ronaldo era indiferente aqui dentro e não precisava do Corinthians para fora. Foi um case, um casamento perfeito, ainda mais que ele veio e jogou muito bem. Hoje eu posso falar. Antes os jornalistas falavam que ele estava jogando com 96 quilos e ficavam falando. Hoje posso falar, ele jogava com 103, 104 quilos. Por isso que ele é o Fenômeno. Ele foi campeão paulista e da Copa do Brasil com 104 quilos. E não fumava.

Pedro Bassan: Qual foi o motivo da sua briga com o Sócrates?

Andrés: Foi num camarote no Morumbi. Quando eu entrei no camarote ele estava com um braço dentro com a cerveja e um braço fora com o cigarro. Falei com ele: “Pô, Magrão, não vai entrar?” Ele disse: “Não, não pode fumar lá dentro.” Eu disse: “Se não puder fumar, eu não entro.” Eu só falei isso e entrei. Ele fez uma matéria, no jornal onde ele escrevia, me escrachando. E foi isso. E eu falei para ele um dia, se eu tivesse um jornal na mão, eu fazia uma de você. Mas não tinha, não pude fazer.

Pedro Bassan: O que que mudou? Mudou o futebol, mudou o Corinthians? Ou mudou só o presidente?

Andrés: Se eu não tenho cara de presidente do Corinthians, eu tenho cara de que? Não vou nem responder, né?

Pedro Bassan: Não, Andrés. Mas veja só, o perfil não mudou?

Andrés: Eu tenho direito de não responder.

Casagrande: Para você, quem foi o presidente mais importante do Corinthians?

Andrés: Todos os presidentes tem seu méritos. Mesmo errando, tem seus méritos. Mas na minha visão, o Vicente Matheus foi o maior presidente.

Casagrande: Qual ação foi melhor? A venda do Rivellino para o Fluminense ou trazer o Ronaldo para o Corinthians?

Andrés: Eu acho que nessa não foi o Vicente que vendeu, foi a torcida que obrigou a vender. E fui eu quem trouxe o Ronaldo, a torcida nem podia sonhar com isso. Nem eu.

Casagrande: Então você trazer o Ronaldo foi melhor?

Andrés: Rivellino foi o maior jogador da história do Corinthians.

Ana Thais: Você percebe que houve uma mudança de perfil do torcedor do Corinthians?

Andrés: Mudança de perfil é. Eu tenho uma filha de 20 anos. Quando ela tinha nove, dez anos, ela viu o time ganhar um título ou dois. E nos últimos dez anos ela viu o Corinthians ganhar tudo. Se minha filha está chata, imagina os outros com menos de 30 anos. Lógico, você pega um time que nos últimos 10 anos ganhou tudo. É outro tipo de torcedor. A Arena Corinthians é um arena democrática, tem ingressos caros e baratos. Eu acho que tem corintiano na classe baixa, média, alta. Rico, pobre e bilionário. O cara me aluga o camarote, 600 pessoas, paga R$1,1 milhão por ano, ele coloca o que quiser, não denegrindo a imagem do Corinthians, eu não posso impedir de pôr. Agora, se é nos Estados Unidos é lançamento, aqui é um absurdo. É obvio que o torcedor corintiano mudou, como mudou o mundo. Aliás, todo mês está mudando o planeta, você não é a mesma pessoa que era há cinco anos. E no futebol também vai.

Milton Leite: O Corinthians continua sendo o time do povo?

Andrés: Claro que somos, somos os maiores em todos os segmentos. Maioria nos traficantes, bandidos, assassinos, rico, pobre, milionário, bilionário. Então é o time do povo.

Mauro Naves: Você acha que o dinheiro da televisão ainda é fundamental para o futebol ou já dá para viver sem ele?

Andrés: No Brasil ainda é, 98% dos clubes dependem da televisão, é o grande incentivo do futebol e vai mudar. Mas, por enquanto, nos próximos três anos, ainda será.

Luis Roberto: E os Naming Rights? Porque que não saíram até hoje?

Andrés: Não vamos falar sobre isso. Isso eu já fui massacrado, mas um dia sai.

Mauro Naves: Daqui a três anos, quem vai estar maior: Corinthians ou Flamengo?

Andrés: Para ouvir o que esses caras ficam falando, depois do que eu disse 10 anos atrás? O tempo vai dizer.

Mauro: Quem é o grande rival do Corinthians nessa área aí? Palmeiras?

Andrés: É diferente. O Palmeiras é nosso grande rival, mas o Flamengo, institucionalmente, é o nosso adversário. O Flamengo tem que crescer torcida todo ano, e eu tenho que crescer a minha. Os outros também, mas para chegar no Flamengo e no Corinthians vão demorar muito. Então, minha disputa é com Flamengo, institucionalmente falando. No campo, é obvio que o Palmeiras, para mim, ainda é o maior rival.

Pedro Bassan: Palmeiras e Flamengo estão em situação financeira bem mais confortável que a do Corinthians. Estão contratando vários nomes e em vantagem em vários indicadores. O Corinthians fechou com déficit o balanço do ano passado.

Andrés: Deixa eu te explicar uma coisa: clube de futebol não é banco, clube de futebol tem que pagar suas contas em dia. Eu tive superávit de R$ 50 milhões, e aí? Eu não posso dividir lucro. Eu tenho que dividir na categoria de base, no esporte olímpico, nas categorias amadoras e no futebol. Tenho que pagar em dia. O que eu não posso é atrasar salário, atrasar as coisas, aí é o caos. Mas, pagando em dia, não tem problema.

Pedro Bassan: Palmeiras e Flamengo estão contratando grandes nomes. Não futebolisticamente, eu estou falando de dinheiro, que esses clubes estão contratando mais que o Corinthians. Isso é por conta do estádio? Até pagar, o Corinthians vai sofrer desse jeito?

Andrés: Mas está sofrendo o quê? Eu estou lá de presidente e não estou sofrendo nada.

Pedro Bassan: Ano passado, no meio do campeonato, teve que desmanchar o time.

Andrés: Mas não teve que desmanchar o time. Você trabalha aonde? Tem contratado de quanto tempo? Se eu sou de outra televisão e te faço uma proposta cinco vezes mais do que você ganha, você vai sair da Globo. Isso é com todo mundo.

Ana Thaís: A situação do Balbuena é contraditória.

Andrés: Não é contraditório, a gente estava há um ano tentando renovar, ele não quis renovar, colocou a multa baixa para poder ir embora, que nem o Romero agora. Não é mercenário, não é nada, é um direito que o cara tem. Eu fico nervoso, lógico que fico, mas é um direito do cara.

Ana: Mas o clube garimpa o cara e, na hora de vender, é isso?

Andrés: Eu trabalho no Corinthians, ganho 400 mil aqui, aí vão me oferecer 1 milhão e meio e eu vou ficar porque o Corinthians é bonito?

Mauro Naves: É loucura pagar 1 milhão e meio para jogador?

Andrés: É inconsequente. Mas tem três times pagando.

Bassan: Palmeiras e Flamengo não estão mais confortáveis do que o Corinthians hoje?

Andrés: O Corinthians em 2012, 2013 e 2014 estava confortável. Contratou o Pato por 15 milhões euros à vista, contratou Renato Augusto por sete, contratou o Gil, e a conta um dia vem. Calma. Futebol tem seu tempo.

Casagrande: Vimos essa tragédia com as categorias de base do Flamengo. Como está o Corinthians nesse momento com essas situações?

Andrés: Muito ruim. Está muito ruim. Está muito ruim nas categorias de base em termos de estrutura. O Corinthians tem alojado hoje 32 meninos e era para te 100, 150 como a média. Tem condições de segurança, mas por que não tem mais meninos? Porque não tem alojamento. Eu não vou alugar casas para colocar 10 garotos em cada casa. O Corinthians tem uma casa. O Corinthians não tem estrutura para colocar jogador.

Martin: Desde a sua época como diretor da base melhorou?

Andrés: Melhorou muito, mas vai melhorar agora que vamos inaugurar o centro de treinamento da base.

Luís Roberto: Andrés, depois de todo desmanche do ano passado e dos salários altos, chega uma hora que é impossível segurar o jogador?

Andrés: É impossível. Eu posso pagar 1 milhão para o jogador, eu não quero pagar. O teto do Corinthians é o Fagner e o Cássio. Ninguém ganha mais do que eles.

Ana Thaís: Como que o Palmeiras segurou o Dudu?

Andrés: Competência dele. Mas a conta vem. Lógico que tem como segurar, pagar 2 milhões por mês, segurar, segura. Isso é normal, está com dinheiro, cada um com sua política. Eu não recrimino, nada.

Mauro: Os empresário ajudam ou atrapalham nas negociações?

Andrés: Muitas vezes ajudam e muitas vezes atrapalham. É um ramo, como todo profissional, tem o empresário bom e o ruim. Melhorou porque eles não têm os direitos econômicos dos atletas. Para os grandes, para os pequenos foi um caos. Empresário investia em um jogador novo tinha um porcentagem e colocava no time pequeno. Hoje, já não pode.

Bassan: Quando o Corinthians vai voltar a ter o teto pelo menos igual ao do restante do futebol brasileiro?

Andrés: Eu tenho conforto, só não quero fazer. Não me garante que eu vou ganhar tendo os melhores, você me garante? Eu posso pagar 1 milhão, 1 milhão e meio para quatro jogadores, para dez, não dá. O Corinthians pode pagar, eu não quero. Poderia comprar Tardelli, Gabigol. A minha política sempre foi contratar o jogadores pagando o mínimo possível.

Milton Leite: Vamos falar sobre a sua vida. Você nasceu no Brasil?

Andrés: Nasci no Brasil. Meus pais são espanhóis, minha mãe faleceu há dois anos.

Milton Leite: E morou dois anos na Espanha?

Andrés: Morei lá de 1970 a 1973.

Milton Leite: E era a ditadura do Franco?

Andrés: Ah, mas eu era garoto, tinha 10 ou 11 anos.

Milton Leite: Você nem lembra?

Andrés: Eu lembro pelos meus tios, meus pais, que sofreram muito.

Luís Roberto: Mas o fato de ser uma ditadura te levou a ser um cara de esquerda?

Andrés: Eu não sou um cara de esquerda, eu acho o que falta no Brasil é ajudar o próximo. Eu procuro ajudar, aliás, eu procuro não prejudicar o próximo então eu já estou ajudando bastante. Eu acho que você tem que viver bem e não precisa ter excesso. Eu ter 10 milhões ou 50 milhões não vai mudar nada na vida de ninguém. O cara ter 1 bilhão e eu ter 1 bilhão e meio, vai mudar o que na vida dele? E isso que nós temos aí, os novos ricos aqui no Brasil, essa elite aí, acham que isso é a salvação do mundo, e não é. Então nisso eu acho que sou de esquerda, eu acho que tem que ter mais social. É um país pobre, tem que ajudar mais o próximo. O governo, infelizmente, tem que ajudar a população, se não o país não vai para frente. Nós temos 150 milhões de pessoas que não consomem no país. Se 150 milhões de pessoas começarem a consumir vai faltar manteiga, faltar arroz, faltar pão, faltar tudo neste país. Então nós não temos que fazer as pessoas consumirem.

Milton Leite: E vocês foram pra Espanha em busca de uma vida melhor naquela época?

Andrés: Não, não. Minha família mexe muito com laranja. Teve a crise da laranja. Eu tenho uns tios que moram na Espanha e não sei o que aconteceu lá, meu pai foi convidado pra Espanha e ficamos lá por dois anos e meio.

Milton Leite: Como que é a sua relação familiar, você citou aí que tem uma filha de 20 anos e como que é? A família cobra muito por você estar no futebol? O fato de ficar muito ausente?

Andrés: Cobraram muito da primeira vez, nessa daqui não cobram tanto, até porque eles já estão todos criados, mas você ser dirigente de futebol, no caso eu que me dedico bastante, é um preço muito caro. Aliás, neste país, se tornar uma pessoa pública é crime.

Mauro: Seu filho Lucas já está bem-sucedido em outro ramo, né? É empresário de música, de show… Não quis ser empresário de futebol né?

Andrés: Ainda bem. Está errado, devia ser (empresário de futebol). Tem treinador que tem filho que é empresário. Tem gente aí… vocês sabem e não falam.

Martín: No final do seu primeiro mandato, você disse: “Eu vou pra arquibancada falar meus palavrões. Não volto mais a ser presidente, não quero mais.” Por que voltou?

Andrés: Um motivo: o estádio. Eu acho que o estádio tem um imbróglio aí, mal feito, e talvez eu seja o único que possa vir a resolver. Estamos tentando aí e já começou a negociação, vamos resolver o mais rápido possível.

Martin: Como que é? Pode contar pra gente?

Mauro: Mas o fato de o PT não ter ganho a eleição presidencial dificulta essa negociação agora com a Odebrecht, com o governo…?

Andrés: O governo não tem nada a ver. É com Odebrecht, com a Prefeitura de São Paulo, Caixa e fundo.

Ana Thaís: Mas a Caixa é do governo federal.

Andrés: Uma parte, a outra é privada.

Ana Thaís: Andrés, você teve uma passagem pela CBF e nunca escondeu sua vontade de voltar para lá, né? Recentemente, quando teve a última eleição, você falou muito sobre isso, qual a sua relação com a CBF, Tite e Edu? Por que durante muito tempo se dizia que a CBF era corintiana, era ligada ao Corinthians. A estrutura da CBF com o Mano, com o Tite. Qual é a sua relação com eles dois e com a CBF? Você tem intenção de ser presidente da CBF?

Andrés: Vamos lá. O Tite, que eu saiba, não é corintiano. Ele trabalhou no Grêmio, no Inter, no Palmeiras. O Edu, concordo, o Edu é corintiano, tem a cara do Corinthians, sempre frequentou. Eu coloquei ele como diretor no futebol profissional. O Mano era do Grêmio, veio para Corinthians, não tem nada a ver com o Corinthians. Eu era ex-presidente do Corinthians e fiquei 10 meses na CBF e saí porque discordei de um monte de coisa, e eles queriam ter lá um Marinho e Marco Polo, um fantoche, e de fantoche eu não tenho nada. Eu respeito o presidente, quem decide é o presidente, mas se não ouvirem a minha opinião, eu não vou ficar aqui. E eles contrataram um treinador sem eu saber, e eu saí. Eu não saí porque tirou o Mano, era o Felipão, eu descordava de tirar o Mano, mas o presidente quis tirar e “vamos tirar”. Mas já tinham contratado treinador e eu não sabia do treinador, por isso que eu saí. Nem foi falado se eu queria ou não queria. Eu não queria tirar o Mano. Eu achava que era um erro ter tirado naquele momento. Quiseram tirar, tira. Mas treinador estava contratado desde agosto, que era Felipão. Sem eu saber! Eu tive que pegar e ir embora, não precisavam da minha cara.

Ana Thais: E sua relação com o Tite hoje?

Andrés: Com o Tite é muito boa.

Andrés: Com o Edu não é, porque não conversamos, não brigamos nem nada, mas não conversamos. Já quis mais (ser presidente da CBF). Hoje é difícil. Porque a Globo não permite, porque as Federações não querem, é o sistema. É democrático? Não. Mas é legal. O Marco Polo foi eleito… Está bem. Eu não acho justo, mas é legal, está no estatuto. O Reinaldo foi eleito presidente da FPF com o mesmo sistema da CBF. Eu acho que não é justo, não é legal.

Luís Roberto: E qual sistema seria justo?

Andrés: Os clubes votam em quem quiser. Tem quantos clubes na Séria A, B, C e D? 60? Escolhem um.

Martin: Mas os clubes não conseguem inviabilizar um candidato?

Andrés: Só se romper com tudo, precisa ter oito assinaturas de federações.

Martin: Precisa ter oito assinaturas de federações e cinco clubes. Não consegue?

Martin: Teve um presidente de federação que me disse: “Nunca, nenhum clube veio aqui me propor um candidato.” O presidente da Federação de Pernambuco.

Andrés: Ele está errado. O novo aí. Esse novo. Mas pergunta para o outro, se eu não fui lá. A última eu não tentei, mas na do Marco Polo eu fui lá.

Milton Leite: Por que que a Globo não quer que o senhor seja presidente?

Andrés: Ela não tem nem esse poder. O que eu quero dizer é o sistema do futebol. É a Globo, que é a maior patrocinadora do futebol. São as federações, os clubes, é difícil.

Mauro: Eu vou pegar o gancho sobre a CBF. Você disse que saiu porque não foi comunicado, na época pelo presidente, sobre a saída do Mano e a chegada do Felipão, mas eu vou pegar um outro assunto que agora é sobre sua passagem lá, sem que você precise entregar ninguém. Você, logo depois que saiu, e ainda hoje, inclusive temos ex-presidente da CBF preso, aquele monte de processos etc e tal. Uma série de coisas foram encaminhadas antes de sua saída. Você chegou a ver muitas falcatruas lá? Estou falando sobre coisa financeira e tal…

Andrés: Não, sobre roubo eu não vi nada. Mas coisas erradas achava. Quando assumi a CBF eu tive carta branca do Ricardo Teixeira. Tem uma porta lá, hoje não, mas antes tinha uma porta onde era futebol e o resto. Aí ele falou: “Da porta para lá, manda você. Da porta pra cá mando eu.” No caso ele. “Lá eu não quero me meter e aqui você não se mete”. Então eu não vi nada. A única coisa de ruim que eu via no futebol, ruim entre aspas, que eu achava que tinha que ser melhor, eram os amistosos da seleção brasileira, que eu achava que tinham que ser com times melhores e cobrar mais caro.

Pedro Bassan:Você esteve na política e no futebol, no alto círculo do futebol brasileiro. Ambos deles são alvos de muitas denúncias, qual deles você acha qual deles é mais difícil?

Andrés: Olha, eu acho que denúncia não é crime, é algo que tem que cobrar, mas o mais difícil é política. Muito mais difícil.

Pedro Bassan: Você se assustou circular em algum momento em Brasília?

Andrés: Não. Olha, eu não vi corrupção lá, mas você via coisas que eram estranhas, que nem uma medida provisória. O governo vai lá e faz uma medida provisória. Depois de três, cinco, dez anos , “olha o presidente que fez essa medida provisória fez esquema”. Alguém chega e fala: “olha, quero que isenta esse copo”. Aí cai lá no Congresso e eles colocam o copo, o talher, a taça, a vasilha e a medida provisória vira um… é o que eles falam lá de jabuti. Então que culpa tem um presidente disso? É o que eu falei, tem que mudar o sistema. Mas eu acho que a política é muito mais difícil porque você mexe com o pais todo e são seis ou sete pessoas que mandam, é o líder do governo, do partido, o presidente da casa.

Casagrande: Qual a relação que o Corinthians tem hoje com o são Paulo, Palmeiras e Santos e como que você acha que está no Brasil a administração de futebol como um todo, qual o nível que está o futebol jogado e a administração?

Andrés: O futebol jogado estamos um fiasco.

Casagrande: Não acha que tem uma relação?

Andrés: O que o Corinthians passou contra o Racing… Se o Corinthians não tivesse numa noite boa, era uma goleada. Acho que o futebol argentino, pelo que foram ver os olheiros do Corinthians, Mauro (da Silva) e o pessoal lá, eles estão taticamente, tecnicamente muito acima de nós. Mentalmente sempre estiveram. Então nós estamos com um negócio de copiar os outros aí, linha de quatro, o cara acompanha o lateral até o final e tal, e o futebol está meio estranho.

Casagrande: O Sampaoli é diferente, é legal…

Andrés: É diferente, é legal. Vamos ver se ganha. Porque hoje está todo mundo achando, o Fernando Diniz hoje é o melhor treinador que tem. Mas ele faz 10 jogos e é um herói, perde cinco e temos que mandar embora. Quem manda embora não é o presidente, não. Quem manda embora é a imprensa, que fica falando que tem que mandar embora, mandar embora… Calma. Se eu mando embora, a imprensa fala que está só há quatro meses lá e não dá tempo. Se eu não mando embora e não ganha a imprensa fala: “olha o presidente não quis mexer, está errado”. Não erram, vocês nunca erram.

Casagrande: E a sua relação com os presidentes de Palmeiras, São Paulo… Como é?

Andrés: Palmeiras e São Paulo é excelente, o ( presidente do Santos, José Carlos) Peres é meio louco, ninguém sabe aonde ele foca. Com o São Paulo é excelente, com o Mauricio (Galiotte, presidente do Palmeiras), com o Flamengo, eu me dou bem com todo mundo. O Corinthians se dá bem com todo mundo. O Peres que hoje está meio, sei lá em que planeta que ele vive, ninguém consegue falar com ele. É inacreditável. Ele falou que o Corinthians queria contratar o Cittadini, ele falou isso, não falou? O Cittadini não está no Corinthians. Palmeiras eu me dou muito bem, é excelente. Agora a administração do futebol, era preto, está cinza e com o tempo vai melhorar mais ainda.

Luís Roberto: Você acha que vai melhorar mesmo? Em quanto tempo? Você acha que atraso de salário, em quanto tempo a gente vai melhorar isso?

Andrés: Dá vontade de falar, não posso falar, mas todo mundo sabe. Não dá pra ter 728 clubes profissionais no Brasil. Todo mundo sabe, é um faz de conta. É um faz de conta, olha aqui tem 100 times, é brincadeira. Tinha que acabar metade.

Ana Thais: Você falou há pouco sobre a questão dos técnicos, dessa linha de quatro. Você trouxe de volta um técnico que é esse cara ligado muito ao futebol europeu que é o Fabio Carille.

Andrés: O Fabio Carille é ligado ao futebol europeu? Ele não tem nem três anos de profissional. Fabio Carille tem dois anos e quatro meses como treinador de futebol. Só que ganhou.

Ana Thais: Você teve que dar algum passo para trás, se refazer para trazer o Carille de volta? Ou como que foi esse processo da saída e da volta dele?

Andrés: Não, na saída eu fiquei muito magoado. Não era pra ele sair, principalmente para onde ele foi. Eu acho que ele tinha que ficar mais um ano no Corinthians, que ele iria ter um contrato muito melhor de fora e para um país muito mais ligado ao futebol do que a própria Arábia. Quando surgiu o boato lá que ele queria voltar e tal, que não deu muito certo, obviamente que o Corinthians seria o primeiro a ir atrás dele. O Jair Ventura já sabia muito bem disso, que se o Carille saísse da Arábia ele voltaria para o Corinthians. Se ele não saísse, aí tudo bem. O Jair estaria no Corinthians, estaria começando o ano aí com o Corinthians.

Pedro Bassan: Você se arrepende das suas brigas com o Juvenal Juvencio?

Andrés: Uma só. Uma eu me arrependo feio. Que ele falou que eu não tinha feito o Mobral, que eu falei que ele era escrivão de polícia, pra olhar CNH. Nós nos ofendemos um pouco no pessoal. Foi quando teve aquele pisoteamento, aquela história toda no Morumbi, e depois disso nós conversamos muito, ele entendeu. Ele era um cara complicado, mas era um cara muito inteligente, muito bom para o futebol brasileiro. Tinha um carinho e ainda tenho um carinho muito grande por ele.

Luís Roberto: O futebol paulista hoje é referência, não é só no Brasil, né? O continente sul-americano inteiro, tem os argentinos…

Andrés: Hoje a referência nós temos, não temos que ir ver na Europa, temos que ver o futebol, tecnicamente falando e taticamente falando, na Argentina.

Luís Roberto: Acha que do ponto de vista da gestão e de como há essa relação, São Paulo é um exemplo pro restante do Brasil?

Andrés: Olha, nós estamos no estado mais rico da federação, e isso é um privilégio. Nós temos, fora os quatro grandes, nós temos quatro ou cinco que são times médios, mas que são fortes. O Rio tem quatro grandes, mas dois com problema de administração anteriores e estão se ajeitando hoje. Os outros, com todo o respeito, não se compara. E o resto não dá. Não dá pra se ter 728 times profissional num país.

Luís Roberto: E o senhor acha que o Estadual tem que acabar mesmo?

Andrés: Não, não tem que acabar, tem que mudar o jeito que é. Acho que o campeonato estadual, times da Série A e Série B não devem disputar, entram nas finais. Tem que reajustar o calendário.

Casagrande: Andrés, os fracassos que a Seleção Brasileira fica acumulado desde 2002, tirando a Olimpíada, até que ponto prejudicam o desenvolvimento e organização administrativa e dentro do campo? O quanto atrapalham os fracassos da Seleção Brasileira?

Andrés: Olha, vamos separar, seleção de base e seleção profissional. Na profissional, 95% trabalha e vive na Europa.

Casagrande: Não, não estou falando de jogador, não, estou falando de disposição, organização, vontade de fazer.

Andrés: Não muda, porque quando ganhou também estava desorganizado, e quanto perde está tudo errado. Então não estava tudo bom quando ganhou e não estava tudo ruim quando perde.

Casagrande: Mas quando perdeu foi em 98, ganhamos 94. De 94 para cá, ganhou em 94, foi para a final em 98, ganhou 2002, foi mais ou menos em 2006. De 2010 em diante só tinha expectativa e as coisas não foram acontecendo. E o quanto isso influencia quando você quer administrar uma coisa legal, ou o jogador quer ficar no Brasil, ou o desenvolvimento dentro do campo? Quanto que a seleção brasileira não ganhando atrapalha o futebol brasileiro?

Andrés: Muito. Ah, agora entendi a pergunta, desculpa. Muito, o que aconteceu no Rio aí agora com Vasco e Fluminense, o futebol brasileiro é um caos. Se eu tenho uma grande empresa e vou patrocinar um time, eu falo: “Pô, espera aí. Eu não vou patrocinar isso aí.” Nós temos três ou quatro grandes empresas só que põe dinheiro no futebol, o restante fala: “Pô, vou pôr no futebol?” Aí você põe uma camisa não sei o quê e o cara reclama. Você põe um ofurô no estádio, é um escândalo.

Casagrande: A seleção brasileira ganhando uma Copa do Mundo, ajuda?

Andrés: Ajuda muito. Ajuda um Brasil como um todo, ajuda muito. Nós estamos com uma geração de oito ou nove anos pra cá muito complicada no futebol brasileiro. De tudo, acho que vamos levar anos aí para ganharmos a Copa do Mundo. Você pega o sub-20, grandes jogadores, mas não era uma equipe, e 70% não joga nos seus clubes. Eu tenho que trazer o Carlos Augusto, vou falar do Carlos porque estava há um ano no profissional sem jogar e foi ser titular na seleção sub-20. Tinha que pegar o titular do sub-20 que está disputando a sub-20, não é porque ele está no profissional do clube que ele tem que ir para a seleção sub-20. Tem que estar jogando. Esse é um dos erros da seleção de base, ele leva o jogador pelo nome, porque é bom jogador, mas não está jogando, como que eu vou por pra jogar num torneio rápido? E nós estamos muito ruim, mentalmente, tecnicamente e taticamente o futebol brasileiro.

Milton Leite: A confusão entre Fluminense e Vasco, na final da Taça Guanabara, foi muito pelo comportamento dos dirigentes, pelo que eles falaram, atitudes e tal. E também falamos aqui das discussões que você já teve com os dirigentes, do São Paulo, do Palmeiras, com o Santos… Enfim, essas posições dos dirigentes, elas não acabam influenciando muito nas brigas entre as torcidas, confusões que temos em geral aqui no Brasil?

Andrés: Não, porque eu já falei de Deus, fiquei rezando, falei tudo e saiu briga. Então uma coisa não tem nada a ver com a outra. Óbvio que você incentiva esse ódio um pelo outro. Nesse caso, acho que o presidente do Fluminense e o presidente do Vasco erraram. Acho que o Judiciário errou mais ainda, fazer portões fechados. Graças a Deus não foi ninguém do Fluminense, se tivesse ido torcida do Fluminense aquilo iria virar um campo de guerra.

Milton Leite: Consórcio do Maracanã, errou ou não?

Andrés: O consórcio nem se fala. Estava desesperado atrás de clube, ele faz tudo que os outros pedem, o que ele não tem. Ele faltou com respeito com o Fluminense, então ele pode negociar com o Vasco, mas tem uma coisa negociada, vamos sentar e negociar.

Martin: Queria perguntar para o torcedor, não para o presidente, quando é o resultado que mais te irrita, mais te tira o sono, uma derrota para o Santos, o Palmeiras…?

Andrés: Toda derrota irrita. Eu ainda, dependendo de como está o campeonato, contra o São Paulo me irrita muito, mas quem é o nosso maior rival é o Palmeiras.

Mauro Naves: Andrés, quem te conhece há muitos anos, como eu, sabe que quando a gente vai falar de falcatruas, roubos, etc, você já sai dando patada para tudo que é lado e diz que não admite. Acredito mesmo na sua idoneidade e queria saber como você trata um empresário que vai na sua sala para pedir um por fora. Você manda ele embora da sala?

Andrés: Não tem isso, não. Vou te explicar. Vou ser sincero. Dos últimos 15 anos, se algum presidente de clube ganhou dinheiro com empresário e venda de jogador, tem que matar ele, não é nem preso, tem que matar. Hoje em dia não dá para fazer mais isso, se eu fizer um rolo com empresário aqui e eu ficar na gaveta dele, amanhã ele me traz o Pedrinho e eu não ponho e ele me mata. Ele vai falar olha o Andrés é f…, não tem jeito, é a comissão. Do Romero, estão culpando aí o Bruno Paiva (empresário do atacante), e ele é complicado mesmo, mas essa do Romero ele não tem culpa. Desde o primeiro dia que ele virou o empresário do Romero eu falei: “Não pago comissão.” Porque eu estou há um ano negociando com o jogador, faltam seis meses, ele vira empresário e vou pagar comissão? Porque hoje o empresário vai lá e dá 1 milhão pro jogador, 500 mil, 2 milhões, 5 milhões para pegar a procuração, e eu não achava justo pagar isso e ele falava: “Não, Andrés, você tem razão, tudo bem.” E ele não quer renovar. Ele tem direto dele, não é mercenário, não tem que ficar bravo com ele, não tem que nada.

Mauro: Ah, mas já te pediram um por fora aí, né?

Andrés: Nunca. Não têm coragem, não, não existe mais isso. O Wagner Ribeiro vem aí e fala, ele fala que ele deu. Ele tem que dar o nome para quem ele deu. Eu interpelei judicialmente, mas depois ele foi falar comigo. Aí eu falei: “Ó, você tem que dar o nome de quem falou. Você fala que tem presidente que aceitou. Quem, eu?” Então tem que falar quem.

Casagrande: O Romero não quer renovar, é o direito dele. Ninguém pode criticar o direito dele. Mas isso aí é só na teoria, o fã do Romero quer saber: por que que não renova?

Casagrande: Então, mas isso não é normal.

Andrés: Ele quer ganhar mais.

Casagrande: Ele quer ganhar mais e não quer jogar?

Andrés: O clube que quiser vir comprar o Romero, dá esse dinheiro para ele, paga metade. “Despacito.”

Mauro: Aí você vai deixar o cara parado lá?

Casagrande: Em relação ao Pato, que você falou agora há pouco, teve aquele jogo contra o Grêmio, semifinal da Copa do Brasil, era o último pênalti, ele deu a cavadinha, o mundo corintiano queria matar ele.

Andrés: O Brasil queria matar o Pato. Menos gremista, todo mundo queria.

Casagrande: Qual foi a sua conversa com o Pato?

Andrés: Eu não estava na época. Eu não era presidente, eu não estava na época. Eu o encontrei, sabe o que eu falei pra ele? “Se você tivesse feito, você era um herói. Você perdeu, agora tem que arcar com as consequências.” Porque se ele faz, todo mundo que estava criticando ele, ia falar “é o Pato, fez um gol desses no Dida.” Mas ele perdeu, teve que pagar o pato.

Luís Roberto: Quem escolhe? O Andrés ou o técnico da vez?

Andrés: O técnico que escolhe. E eu tento contratar, eu, o (departamento de) futebol. Impossível. Aí você tem um manager lá. No Corinthians passa pelo CIFUT, passa pelo Mauro (da Silva), quando é um jogador que o Corinthians não pediu. Aí falam do Pedrinho lá, aí o CIFUT vai lá ver, analisa, porque hoje não é mais só ser bom, tem que ver confronto direto, quantas assistências ele fez, quantos gols ele fez, se ele é bom nisso, é bom naquilo. Hoje tem dado para tudo, mas sem o “ok” do treinador eu não contrato.

Martin: E o contrário já aconteceu? Passar por todos esses filtros e chegar na sua mesa e você dizer não?

Andrés: Um monte, não tinha dinheiro para comprar.

Casagrande: Só por isso?

Andrés: Não, tem outros problemas também.

Martin: Sem citar nomes, já aconteceu?

Andrés: Baladeiro, encrenqueiro para o grupo, arruma muita confusão com o grupo.

Martin: Informação que você tem e que tem que passar para o departamento?

Andrés: O treinador não quer ouvir, às vezes não quer ouvir.

Ana Thaís: Andrés, em 2007 você tem uma frase mais ou menos assim: quem riu do Corinthians, riu, e quem não riu, não vai rir mais. Alguma coisa assim. Você sempre fez parte dessa estrutura, você nunca se ausentou no Corinthians, mesmo quando não era presidente, estava ali por perto.

Andrés: Nas coisas ruins. Eu fui campeão do mundo e ninguém falou: “foi o Andrés”.

Ana Thais: De alguma forma, você sempre esteve por aí, até os presidentes Mario Gobbi e Roberto de Andrade sempre falaram isso. Mas qual é o seu objetivo agora, você falou da questão do estádio, mas seu objetivo como presidente nessa gestão? Por que você aceitou voltar? Você colocou sua popularidade em risco, você pode sair como um presidente diferente daquele que assumiu em 2007, qual que é seu objetivo agora?

Andrés: Quando eu assumi, não, quando eu saí em 2011. Eu sou conselheiro do clube, sou apaixonado pelo clube, sou sócio desde 1967, 68, é uma paixão, eu não queria voltar mais, mas eu posso ajudar no estádio e voltei para tentar resolver. Não vou dizer que vai resolver, mas eu tenho grandes chances de resolver.

Casagrande: Sobre aquela frase de “quem riu não vai rir mais”, você ficou assustado no passado no Corinthians?

Andrés: É óbvio que, como torcedor, você cair para a segunda divisão é terrível. Mas hoje nós temos que saber que o futebol brasileiro está tão nivelado. Minha opinião é: tem que ter 16 times no futebol brasileiro da Série A. É meu objetivo ter 16 clubes. E, obviamente, que um ou dois grandes sempre vão cair, e isso é bom que vai fortalecer os times da Série B também. Mas lógico que eu fiquei assustado com a situação do ano passado.

Martin: Caírem quatro é muito?

Andrés: De 20 está bom. Mas se for para 16 e caírem dois e subirem dois é o ideal.

Casagrande: Em qual momento do campeonato você pensou: “agora vai ser difícil o Corinthians se salvar”?

Andrés: Sei lá, nos cinco últimos jogos eu quase mudo de país.

Ana Thaís: Se ganha a Copa do Brasil esconde um pouco?

Andrés: Não esconderia. Olha aqui, nós fomos campeões do mundo, campeões da Libertadores, bicampeão paulista, passou. Perde três jogos, “bandidos, filha da mãe”. Essas redes sociais hoje, tem o torcedor de arquibancada, que são os bons, os de camarotes, que são bons, e tem os das redes sociais, que não vão ao jogo, mas nas redes sociais te enchem o saco o dia inteiro, te ameaçam, te xingam.

Pedro Bassan: A tua projeção é tão sombria para o Campeonato Brasileiro também? Ou esse grande evento que a gente tem que está nas mão dos dirigentes pode melhorar?

Andrés: Dirigentes? Quais dirigentes?

Andrés: Você está de brincadeira. Ô, Bassan, você é um cara inteligente, pô. Quem manda no futebol brasileiro são as federações e a CBF. Ou vamos romper com tudo, ou vamos tentar levar na conversa, que vai levar mais 10, 15 anos. É que nem liga, vamos fazer liga? Como se fosse assim, como vai ficar a divisão do dinheiro? Se hoje, que é mais ou menos acertado, é uma brigalhada, imagina 20 clubes, vamos fazer a liga. Tem um bilhão. Palmeiras vai ganhar igual? Corinthians? Flamengo? Os clubes não vão aceitar. Eu, se sou o presidente da CBF, pego a chave do campeonato e dou assim para os clubes, “façam um Campeonato Brasileiro vocês”.

Mauro Naves: Dizem por aí que quando o jogo é contra o São Paulo você entra no vestiário para dar uma estimulada.

Andrés: Muitas vezes. Verdade. Nesse (último) aí, eu entrei cobrando. Com todo respeito, mas está em terceiro no grupo do Campeonato Paulista? Falei que os jogadores tinham que devolver dinheiro para o Corinthians. Pergunta se não falei isso para eles. Nenhum pediu prêmio. Nem contra o Palmeias, nem contra o São Paulo. Vocês têm contatos com eles lá, com poucos, mas tem uns traíra lá. Pega e pergunta. No jogo contra o São Paulo, um ou outro veio assim e eu falei “vocês têm que me devolver dinheiro.” Acabou o assunto.

Luís Roberto: É Dom Quixote ou mais louco do bando?

Andrés: Todo corintiano é louco. E dom Quixote, pelo amor de Deus, né?

Milton: Qual foi a pergunta que faltou a gente fazer para o senhor?

Andrés: Nós estamos muito mal técnica e taticamente no futebol brasileiro. Esse negócio de concentração todo dia, nós treinamos bastante. Olha, eu fiquei impressionado com o Racing, podia ter ganho ou não ganho. Nós temos que melhorar muito , eu acho que começando na categoria de base. Hoje o treinador da categoria de base não pode perder e ser mandado embora. O jogador é só físico. Nós estamos perdendo a nossa essência de futebol. Toda hora é campo reduzido. Toda hora é não pode não sei o que. Toda hora é o fisiologista, “se der dez chutes, vai ter probleminha não sei o que”. Não pode isso, não pode aquilo. Está muito chato.

Milton: E o calendário presidente?

Andrés: Temos que falar com a toda poderosa.

Milton Leite: Muito obrigado pela presença.

Andrés: Muito obrigado e desculpe qualquer coisa.