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Último desejo: Parentes contam como atenderam aos pedidos de entes queridos com doenças em fase terminal

Atender a um último pedido de um ente querido. Para parentes de pacientes em estágio avançado de alguma doença, quando médicos já descartaram qualquer possibilidade de cura, essa é a forma de proporcionar mais um momento de alegria, antes da morte. Ao menos é esse o argumento colhido em relatos de leitores recebidos pela reportagem para justificar a benesse.

Após a repercussão da morte do jovem Wendrik Santos da Silva, de 18 anos, que fugiu do hospital onde estava internado, em Joinville, Santa Catarina, para satisfazer a vontade de comer um hambúrguer — ele, que sofria de um câncer no intestino e já recebia tratamento paliativos, faleceu depois de retornar à unidade de saúde —, leitores do EXTRA relataram suas experiências com pessoas próximas que passavam por situação semelhante.

Na maioria dos casos, atenderam aos pedidos dos que estavam hospitalizados. Mas há aqueles que optaram agir de forma contrária, com o receio de contribuir para uma piora no quadro clínico.

Nas histórias, desejos que podem parecer simples, mas, segundo os próprios “donos das lembranças”, importantes para aqueles que não tem tanto tempo de vida: um sanduíche, um chocolate ou até mesmo um copo de refrigerante.

A mãe da jornalista Caroline Dias, por exemplo, sofria de um câncer de mama em estágio grave. Testemunhando a evolução do quadro da mãe, resolveu atender o pedido dela e lhe deu um picolé de limão.

— Parecia que estava comendo a coisa mais gostosa do universo — lembrou Caroline.

Especialistas em medicina paliativa explicam que é importante atender a desejos de pacientes que estejam em estágio avançado de alguma doença, tentar proporcionar alguma qualidade de vida a essas pessoas. Eles, no entanto, ressaltam que as vontades podem ser concedidas depois de uma avaliação da equipe médica.

O médico Carlos Alberto Chiesa, diretor-presidente do Hospital Placi, que é especializado em reabilitação, cuidados paliativos e cuidados continuados, diz que o propósito de tratamentos paliativos é controlar sintomas e oferecer dignidade — “respeitar o desejo de quem está partindo”.

— Envolve oferecer prazer, alegria, conforto, momentos de felicidade e de gratidão. O objetivo é trazer vida a todos os momentos da vida. Isto pode significar um brinde, um bolo, uma música, uma lembrança, uma reunião de família, a realização de um desejo de longa data — explicou Chiesa.

Ele pondera, no entanto, que para que esses desejos sejam atendidos é preciso analisar a situação do paciente. Isso para não provocar ainda mais sofrimento a quem recebe o tratamento:

— As limitações físicas e complicações das doenças devem ser consideradas para que o atendimento de um desejo não gere um sofrimento maior. Nesta situação o preceito de “primeiro, não prejudicar”, também conhecido como princípio da “não maleficência” se impõe acima de tudo — acrescentou o médico.

Veja algumas histórias:

Queria um picolé – relato de Caroline Dias

Minha mãe, Maria Jorgina Ferreira da Silva, tinha um câncer de mama em estágio grave e teve uma melhora após duas semanas internada. Ela foi transferida para o quarto e liberada para ingerir alguns alimentos. Quando me viu no horário de visitas, pediu um picolé de limão. Fui lá, comprei para ela e dei. Parecia que ela estava comendo a coisa mais gostosa do universo.

Nesse mesmo dia, à noite, ela ficou muito mal e foi para o CTI novamente. No dia seguinte ela não resistiu e faleceu. Depois, eu soube que a safadinha pediu o mesmo pra minha irmã e no total foram 2 picolés (risos). Ela ficou tão feliz e satisfeita que não me arrependo. Aprendi que a gente tem que viver o hoje, tem que aproveitar tudo que a gente puder, porque a vida se esvai a qualquer momento.

Feijão da filha – relato de Fernanda Freitas

Meu pai descobriu uma doença no fígado que avançou rapidamente. Um dia, apareceu na minha casa para uma visita e encontrou uma panela cheia de feijão, que eu tinha acabado de cozinhar.

Eu falei: “Pai, você não pode comer esse feijão, está cheio de salgados, cheio de gordura”. Mesmo assim, ele continuou comendo. Parecia muito feliz. Foi a última vez que vi meu pai com vida. Uma semana depois, recebi a notícia de que ele tinha falecido.

A última latinha – relato de Bárbara Costa

Meu pai estava em fase terminal de câncer e ele queria muito tomar um refrigerante de laranja. Nossa, como ele pedia e eu negava. Eu não queria acreditar que seria o fim…

Até que um dia, minha irmã, que é enfermeira, trouxe para ele. Questionei ela demais, mas conversei com o médico e ele me falou assim: “Deixa ele ser feliz com o que é simples para nós”.

Eu vi meu pai tomar aquela latinha de refrigerante como se fosse a melhor coisa do mundo. É muito triste isso tudo… Pelo menos ele foi feliz nesses últimos momentos de vida.

Não pôde ver o mar – relato de Alice Saraiva

Em fase terminal, minha tia vivia me pedindo coxinha, pizza, bolinha de queijo e refrigerante. Um dia, conversei com o médico e ele disse para dar tudo o que ela tivesse vontade de comer.

Foi estranho, porém tão humano da parte dele! Ela nem conseguiu comer tudo, mas ficou feliz. Só faleceu depois de um tempo. Infelizmente, só não deu para levá-la ao mar, estava muito fraca. Esta semana fez um ano que descansou.

Piqueniques – relato de Giselle Camartte

Minha mãe, mulher forte… estava internada também com câncer no intestino e na cabeça, em tratamento paliativo, já em metástase, sem muito o que fazer. Ficou 40 dias no hospital.

Fazíamos piquenique com as visitas, sob a fingida omissão da equipe de enfermagem, pois até eles participavam ” escondidos” (risos). Enquanto estava internada, eram os únicos momentos de alegria, pois não tínhamos mais o que fazer. Dois anos de saudades.

Última foto – relato de Elaine Mota

Até hoje eu lembro de uma paciente que estava com câncer no hospital onde eu trabalho. Entrei para limpar o quarto e ela aparentava estar bem. Pediu que eu tirasse uma foto, porque ela não ia poder mais tirar foto sorrindo. Eu ainda disse: “que isso! A senhora vai tirar muitas fotos felizes com sua família”. Ela repetiu: “Infelizmente, pretinha — como me chamava — não vou poder”.

Tirei a foto, ela estava linda, me deu um bombom e disse: “Cada vez que você tiver com vontade de fazer alguma coisa, faça. Ser feliz é uma delas”. No segundo plantão, soube que ela tinha falecido. Até hoje entro no quarto e vejo ela sorrindo. Fiquei triste com a notícia, mas, ao mesmo tempo, feliz por realizar a última vontade dela.