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Erro de jornalista infla retórica do governo contra a imprensa | Opinião e Notícia

Jornalista da ‘Globo’ anuncia equivocadamente a demissão de Ricardo Vélez e infla a retórica do governo Bolsonaro contra a mídia

Uma polêmica envolvendo o governo Bolsonaro e a mídia tomou o debate nas redes sociais nesta quinta-feira, 28.

A controvérsia teve início por conta de uma “barriga”
– expressão usada no meio jornalístico para descrever uma informação equivocada
– da jornalista Eliane Cantanhêde, da Globo News.

Na última quarta-feira, 27, durante a cobertura da crise no Ministério da Educação (MEC), a jornalista informou que o presidente da República, Jair Bolsonaro, havia decidido demitir o ministro Ricardo Vélez – notícia que foi negada pelo presidente.

A jornalista baseou sua notícia em uma informação repassada por uma fonte considerada confiável. Alguns profissionais da imprensa levantaram a hipótese de Cantanhêde ter sido vítima de uma armação, apontando que a informação partiu de uma fonte de dentro do governo.

O caso expôs um embaraço possível de ocorrer com qualquer profissional da imprensa, em algum momento de sua carreira. O tema, inclusive, já foi alvo de análise no portal do Observatório da Imprensa, no artigo “O furo e a barriga”, de 2013, que aponta que a busca por um furo jornalístico, sem o devido cuidado e atenção, pode resultar em uma “barriga”.

Se por um lado o episódio causou uma grande dor de cabeça para Cantanhêde, por outro serviu como uma luva para Bolsonaro, que aproveitou para inflar sua retórica de ataques à imprensa.

No mesmo dia em que criticou a jornalista, Bolsonaro concedeu uma entrevista à TV Bandeirantes, na qual categorizou o jornal Folha de S.Paulo como a “fonte de todo o mal” na imprensa, sugerindo que o veículo mentiu ao dizer que ele elogiou o ditador chileno Augusto Pinochet durante sua visita ao Chile.

A matéria a que Bolsonaro se referia, no entanto, citava declarações dadas por ele, não em sua visita ao Chile, mas em uma entrevista concedida em 2015, ao programa Você na TV, da Rede TV, e uma entrevista do ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, dada no último dia 21, à Rádio Gaúcha, na qual ele afirmou que Pinochet “teve de dar um banho de sangue” que “lavou as ruas do Chile” e que “as bases macroeconômicas foram fixadas naquele governo”.

As declarações do governo Bolsonaro sobre as ditaduras latino-americanas foram rechaçadas pelo presidente do Chile, Sebastián Piñera, um dia após Bolsonaro deixar o país. “Não compartilho muito do que Bolsonaro diz sobre o tema”, disse o presidente chileno. 

Apesar de servir momentaneamente, o caso envolvendo
Cantanhêde não dissipa a real crise que acomete o governo.

Em relação ao MEC, por exemplo, embora esteja equivocada a informação da demissão de Vélez, não é mentira que a Pasta passa por uma grave crise interna, acirrada por uma disputa de poder. Também são reais as polêmicas no órgão envolvendo uma luta quixotesca contra uma suposta “doutrinação ideológica” nas escolas, a mudança em um edital que eliminou a temática de defesa dos direitos humanos e a obrigatoriedade de referências bibliográficas em livros escolares, o desmonte da Secretaria da Diversidade, a orientação para filmar – sem autorização dos responsáveis – alunos cantando o hino nacional e a tentativa de suspender, até 2021, a avaliação da alfabetização infantil. Além disso, a Pasta coleciona seis recuos, 15 exonerações e constantes críticas à atuação de Vélez.

Além de paralisar um órgão de extrema
importância, a inércia observada atualmente, decorrente da bateção de cabeça dentro
do MEC, pode se converter em um alto preço a pagar no futuro em relação à
educação.

Ademais, fora do ministério, também não é mentira que o governo trava um embate com o Congresso – em especial, com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) – que ganhou um novo capítulo na última quarta-feira, quando ambos voltaram a trocar farpas.

Como resultado da divergência entre o Congresso e o governo Bolsonaro, o dólar disparou na última quarta-feira, atingindo a maior cotação desde o primeiro turno das eleições, sendo vendido a R$ 3,96, enquanto a Bolsa despencou 3,6%, tendo avançado um ponto percentual nesta quinta-feira.