/Operações do MPF sobre Angra 3 investigam desvios de R$ 70,4 milhões

Operações do MPF sobre Angra 3 investigam desvios de R$ 70,4 milhões

RIO – As investigações sobre os desvios nas obras da usina nuclear de
Angra 3
já levaram o
Ministério Público Federal (MPF)
a deflagrar, desde 2015, quatro operações para apurar o pagamento de ao menos
R$ 70,4 milhões
em propinas. A última delas, em 21 de março, levou à prisão o ex-presidente Michel Temer, solto quatro dias depois. Agora, vem mais pela frente, de acordo com os procuradores. Na mira, estão até empresas internacionais.

A história da Lava-Jato no Rio tem as investigações sobre as obras de Angra 3 como fio condutor. Foi com a apuração desse caso que a força-tarefa do MPF nasceu em 2016. Deflagrada no ano anterior pelos investigadores de Curitiba, a Operação Radioatividade prendeu à época o então presidente da Eletronuclear, Othon Silva.

Por não guardar relação com a investigação na Petrobras, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou o desmembramento para o Rio. Por sorteio, o caso caiu nas mãos do juiz Marcelo Bretas, abrindo caminho para que fosse ele a julgar os demais processos da Lava-Jato no estado. Foi também essa apuração que levou a força-tarefa do Rio a prender seu principal alvo até o momento: Temer.

Os investigadores atribuem ao ex-presidente a indicação de Othon para o comando da Eletronuclear. Apontam que Temer fez isso para, no fim das contas, garantir o recebimento de vantagens indevidas.

Na Operação Descontaminação, em que Temer foi mandado para a cadeia, os desvios apurados chegam a R$ 18 milhões. Em uma das duas denúncias feitas contra o emedebista, e aceita por Bretas, o MPF anexa um e-mail encaminhado por Othon Silva a outro denunciado que os procuradores afirmam ser o intermediador da relação com João Baptista Lima Filho, o coronel Lima, amigo de Temer e homem apontado como operador do ex-presidente.

Na mensagem, Othon encaminha um currículo de Leonam dos Santos Guimarães para a função de diretor de Operações, e pede para que seja entregue a “Limoeiro”. Para o MPF, trata-se do coronel Lima, e a intenção era de que o e-mail chegasse às mãos de Temer.

E-mail encaminhado pelo então presidente da Eletronuclear Othon Silva para “Limoeiro”, que seria, segundo o MPF, o coronel Lima

E-mail encaminhado pelo então presidente da Eletronuclear Othon Silva para “Limoeiro”, que seria, segundo o MPF, o coronel Lima

Leonam é hoje presidente da Eletronuclear. Em um comunicado, a empresa afirmou que “os procedimentos de investigação não detectaram qualquer suspeição sobre a conduta” de Leonam ou qualquer envolvimento dele “com o esquema de corrupção encontrado na Eletronuclear”.

Se a operação mais recente prendeu Temer e a primeira, Othon, foi uma fase intermediária a que mirou a maior parte da propina. Na época da deflagração da operação Pripyat, em julho de 2016, cinco ex-integrantes da cúpula da Eletronuclear foram presos. Os procuradores afirmaram que os desvios apurados na empresa chegavam a R$ 48 milhões, incluindo pagamento de propina a políticos. A quarta operação foi a Irmandade, em agosto de 2016, e envolveu a apuração de crimes de lavagem de dinheiro.

No centro das investigações, as obras de Angra 3 começaram em 1984. Foram paralisadas dois anos depois, por dificuldades econômicas. O projeto ficou na gaveta até 2009, quando foi retomado com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). As obras foram paralisadas novamente em 2015, após a Lava-Jato. A previsão de conclusão ficou para 2026.

A Eletronuclear informou que o valor total previsto para o investimento em Angra 3 é de cerca de R$ 21 bilhões, dos quais R$ 7 bilhões já foram gastos. Angra 3 possui 2/3 de suas obras físicas concluídas.

Quando entrar em operação, a geração da usina será suficiente para atender 4,45 milhões de pessoas. Com as três usinas em operação, a energia será equivalente a 68% do consumo do estado do Rio.