/Local onde morreram idosa e criança não consta em mapa de risco do Rio

Local onde morreram idosa e criança não consta em mapa de risco do Rio

Na última semana, a tragédia com 10 mortos em decorrência de deslizamentos no Rio de Janeiro trouxe de volta uma série de questionamentos sobre a preparação da cidade para chuvas intensas. Segundo especialistas, a cidade tem uma geografia difícil unida a ocupação urbana irregular, o que potencializa esses episódios. Para evitar incidentes, inclusive mortes, é preciso manter atualizado o mapeamento das áreas de risco; É ele que orientará as obras que podem conter os desabamentos ou então acionar sirenes para retirada de pessoas. Só que, segundo os pesquisadores, essas áreas são mutáveis e precisam de acompanhamento para identificar mudanças, aumento ou regressão dos riscos.

ÉPOCA conseguiu confirmar que um dos locais onde três pessoas morreram nos últimos dias, a Ladeira do Leme, não constava no mapeamento. A astróloga Lucia Neves, sua neta, Julia Neves Aché, de 7 anos, e o motorista Marcelo Tavares morreram soterrados dentro de um táxi soterrado por lama e pedras enormes na avenida Carlos Peixoto, que fica atrás do Shopping Rio Sul.

Por nota, a Secretaria Municipal de Infraestrutura e Habitação disse que “a Ladeira do Leme é uma via que foi construída pela construtora responsável pelo Shopping Rio Sul, que fez as obras de contenção necessárias. É uma via que não tem qualquer histórico de acidente ou deslizamento, portanto, não constava no mapa de risco”. Procurada, a administração do shopping disse que “a rua citada é uma via pública sob total gestão da Prefeitura do Rio de Janeiro. O RioSul Shopping Center não teve conhecimento pelos órgãos competentes sobre qualquer risco na região”.

O mapeamento das encostas no Rio começou a ser feito de modo inédito há quase dez anos quando um temporal também afetou dramaticamente a capital fluminense. Em abril de 2010, deslizamentos em todo o estado, deixaram mais de 250 mortos. Só na capital, no Morro dos Prazeres, foram 35 vítimas. Na capital, desde então, uma série de medidas, foi implementada após o mapeamento inédito nas encostas e áreas de risco.

O engenheiro Moacyr Duarte, pesquisador da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ) acompanhou o processo e pontua que não adianta culpar a chuva. “Como era a estratégia? Tem que ir nas áreas para checar a posição de estabilidade. Só que esse mapeamento é dinâmico.  A condição das áreas de risco ou mapeamento é uma coisa dinâmica, a cada evento desse uma parte cai e outras partes que vinham sendo estabilizadas nos temporais anteriores vão se tornando mais críticas”, explica Duarte. Foram identificadas 103 áreas de risco.

Segundo ele, a Fundação Instituto de Geotécnica (Geo-Rio) fazia esse mapeamento e “colocava a Defesa Civil para ir nos locais e inspecionar não só a encosta, mas a casa das pessoas”. Assim, pessoas foram removidas de suas casas, criaram-se sistemas de emergência, sirenes foram posicionadas e treinamentos foram feitos para que as pessoas soubessem o que fazer durante um temporal. As medidas evitaram mortes até fevereiro de 2019.

Ladeira do leme, local do acidente fatal, com 3 vítimas, por conta de deslizamento de terra. Foto: GABRIEL MONTEIRO / Agência O Globo
Ladeira do leme, local do acidente fatal, com 3 vítimas, por conta de deslizamento de terra. Foto: GABRIEL MONTEIRO / Agência O Globo

“Não sabemos aqui até agora como é que tem sido feito ou se foi atualizado esse mapeamento de risco. Se não é atualizado a Defesa Civil começa a agir às cegas. O mapeamento é algo para se refazer todo ano e ele custa caro com helicóptero, imagem de satélite, instrumentos para medir subida de água, entre outros”, afirma Duarte.

Durante dois dias, ÉPOCA solicitou à prefeitura do Rio cópia da versão mais atualizada do mapeamento, mas o documento não foi entregue. Integrantes da administração do prefeito Eduardo Paes contaram que o mapeamento, em si, não tinha revisto até o fim de 2016 apesar das diversas obras de contenção que foram feitas. Um integrante do alto escalão da gestão do prefeito Marcelo Crivella também afirmou que desde lá o mapeamento não foi atualizado.

Questionada, a prefeitura disse que o mapeamento foi atualizado, mas não entregou cópias do documento. Em nota, a Secretaria de Infraestrutura e Urbanismo disse que “o mapa é atualizado, na maior parte das vezes reduzido, à medida que obras de mitigação são realizadas. Há uma média de 70 intervenções de médio e pequeno porte em contratos de manutenção anual. A última atualização, por exemplo, foi em fevereiro deste ano, a partir da conclusão das intervenções realizadas após as chuvas daquele mês. E continua a ser atualizado à medida que outras intervenções forem sendo concluídas. Reforço que todas as áreas da cidade são monitoradas de forma constante e contínua, principalmente as que contam com sirenes”.

Adacto Ottoni, professor do Departamento de Engenharia Sanitária e do Meio Ambiente da UERJ, explica que, por conta de sua geografia e clima, o Rio de Janeiro fica suscetível a diversos tipos de chuva intensa.  Para Ottoni, a Prefeitura não tomou as precauções necessárias para evitar a destruição da cidade. Além do desflorestamento que acontece nas encostas do Rio, que reduz a infiltração da água e aumenta o escoamento para a cidade, e do descaso com as populações morando em áreas de risco — legalizadas ou não —, ele destaca outras medidas mais simples que não foram realizadas. Segundo ele, não houve obras de barragem de controle de erosão, limpeza do sistema de drenagens e nem o uso correto dos reservatórios subterrâneos. “Qualquer chuvinha no Rio deixa uma mancha de inundação. O beabá a Prefeitura não faz”, argumenta.