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Cristina Kirchner anuncia candidatura à vice-presidência da Argentina

A ex-presidente da Argentina Cristina Kirchner anunciou neste sábado (18) que será candidata à vice-presidência na chapa liderada por Alberto Fernández, seu ex-chefe de gabinete. As eleições presidenciais acontecem em outubro.

“Estou convencida que esta chapa que propomos é a que melhor expressa o que neste momento a Argentina necessita para convocar os mais amplos setores sociais e políticos e econômicos também, não só para ganhar uma eleição, mas para governar”, declarou a atual senadora em vídeo divulgado no Twitter.

Trata-se de um passo surpreendente da ex-presidente de esquerda, que era amplamente cotada como a principal oponente de Mauricio Macri, candidato à reeleição.

Cristina Kirchner em imagem de novembo de 2018, na Argentina — Foto: REUTERS/Martin Acosta/ArquivoCristina Kirchner em imagem de novembo de 2018, na Argentina — Foto: REUTERS/Martin Acosta/Arquivo

Cristina Kirchner em imagem de novembo de 2018, na Argentina — Foto: REUTERS/Martin Acosta/Arquivo

Cristina Kirchner ainda tem uma robusta base de seguidores e aparece na liderança das pesquisas de intenção de voto. Mas muitos argentinos têm receio do seu retorno à presidência. Ela ocupou o cargo entre 2007 e 2015 e hoje é senadora. Desde 2016, enfrenta escândalos de corrupção. São ao menos dez processos na Justiça – cinco deles com pedidos de prisão que não podem ser executados porque ela tem foro privilegiado.

O atual presidente argentino vive sob pressão em meio a uma crescente recessão e uma inflação em alta, o que têm prejudicado o seu desempenho nas pesquisas. Pró-mercado, Macri atribui os problemas econômicos à “herança recebida dos Kirchner” e aos casos de corrupção.

O atual presidente argentino, Mauricio Macri  — Foto: ReutersO atual presidente argentino, Mauricio Macri  — Foto: Reuters

O atual presidente argentino, Mauricio Macri — Foto: Reuters

Fernández e Cristina participarão na mesma chapa presidencial das chamadas Primárias Abertas Simultâneas e Obrigatórias (Paso), que acontecerão em 11 de agosto e nas quais os cidadãos definirão qual de todos os aspirantes a um mesmo cargo que apresenta cada partido será o candidato a participar dos pleitos gerais de outubro.

A ex-governante anunciou sua decisão dizendo estar convencida que “a expectativa e a ambição pessoal têm que estar subordinadas ao interesse geral”.

Cristina e Fernández em harmonia

O advogado Alberto Fernández que passou vários anos distanciado de Cristina, foi seu chefe de gabinete por poucos meses, até que apresentou sua renúncia em julho de 2008, quando houve a polêmica rejeição no Senado de um projeto governista que buscava aplicar um novo sistema tributário ao comércio da soja.

O pré-candidato à presidência também foi chefe de gabinete do ex-presidente Néstor Kirchner, entre 2003 e 2008.

Nas últimas semanas, Cristina e Fernández foram vistos novamente em harmonia, tanto que ela declarou que foi ele quem a encorajou a escrever sua bem-sucedida autobiografia, “Sinceramente”.

“Alberto, a quem conheço já há mais de 20 anos e com quem tive também diferenças, foi chefe de gabinete de Néstor durante toda sua presidência e o vi decidir, organizar, concordar e buscar a maior amplitude possível do governo”, destaca a senadora no vídeo, editado com imagens históricas.

Segundo lembra, o momento da posse de seu marido, em 2003, com os efeitos da grave crise de 2001 ainda latentes, foram “tempos muito difíceis”. “Mas estes que estamos vivendo os argentinos e as argentinas são realmente dramáticos. Nunca tivemos tantos e tantas dormindo na rua, nunca tantos e tantas com problemas de comida, de trabalho, nunca tantos e tantas desesperados chorando diante de uma conta impagável”, comparou.

“É fundamental, então, evitar somar à frustração atual, produto da fraude eleitoral que facilitou a chegada de Mauricio Macri ao poder, uma nova frustração que submergiria a Argentina no pior dos infernos”, completou Cristina.

Rejeição em parte do peronismo

Na terça-feira passada, a ex-presidente participou de uma reunião da comissão executiva do Partido Justicialista, histórica legenda peronista, que gerou forte expectativa, uma vez que ela estava há anos ausente. O partido é o maior do país e foi fundado pelo ex-presidente Juan Domingo Perón em meados da década de 1940.

Nesse encontro, os participantes reivindicaram a unidade do movimento para derrotar o governo de Macri, cuja imagem nos últimos meses caiu fortemente nas pesquisas.

A imagem de Cristina, no entanto, gera rejeição em parte do peronismo que ela integra, como, por exemplo, entre o chefe do Bloco Justicialista no Senado, Miguel Ángel Pichetto; o governador de Salta, Juan Manuel Urtubey e o ex-chefe de gabinete, Sergio Massa, que já anunciaram sua intenção de concorrer nas primárias pela corrente Alternativa Federal.

Kirchner enfrenta um processo no qual é acusada de favorecer o empresário Lázaro Baez com a concessão de 52 obras públicas no valor de US$ 1,15 bilhão em Santa Cruz, Patagônia, província do sul da Argentina que foi o trampolim da ex-presidente para a política nacional.

A Corte Suprema de Justiça da Argentina confirmou que vai começar o analisar o caso na próxima terça-feira (21).

Além desse caso, Cristina também está no centro do escândalo chamado de “cadernos da propina”, em que as autoridades investigam suposto envolvimento em um esquema de corrupção em contratos de obras públicas durante a sua presidência.