/O que esperar de Palmeiras x Santos, o clássico que opõe pragmatismo e agressividade

O que esperar de Palmeiras x Santos, o clássico que opõe pragmatismo e agressividade

Santos e Palmeiras fazem campanhas semelhantes no Campeonato Brasileiro. Somam dez pontos na tabela, possuem os melhores ataques e as melhores defesas da competição. Quem vê apenas os números frios nem imagina que os estilos de jogo não poderiam ser mais diferentes. O Santos martela seus adversários, o Palmeiras é cirúrgico. O Peixe joga com linha de defesa alta, o Verdão se mantém postado atrás. O clássico será no próximo sábado, às 19h (de Brasília), no Pacaembu, pela 5ª rodada do Brasileiro. Mas, antes, vamos entender como funcionam as engrenagens defensiva e ofensiva dos rivais.

Defesas: Palmeiras intransponível, Santos “bom aluno”

A maior virtude do Palmeiras em 2019 reside no setor defensivo. Felipão ostenta a incrível marca de oito gols sofridos em 26 partidas na temporada, a melhor defesa do país. E pasme: seis desses gols foram durante o Campeonato Paulista. Em dez partidas somadas de Libertadores e Brasileirão, de maior nível de exigência, só dois gols sofridos. A defesa palmeirense só levou mais de um gol uma única vez – ainda assim, venceu: 3 a 2 no Ituano, pelo Paulistão.

Esse rendimento fora da curva da retaguarda está intimamente ligado à ideia de jogo típica de Felipão. Quem explica é Leonardo Miranda, do Blog Painel Tático, do GloboEsporte.com.

Gols sofridos pelo Palmeiras em 2019

Verdão tem média de 0,30 gol sofrido por jogo

Fonte: Futdados

– Existe um fator muito importante em todos os trabalhos do Scolari, inclusive o atual: são times extremamente estratégicos. O Palmeiras imprime grande intensidade nos primeiros 20 minutos de partida, atacando a mil. Volantes lançando direto para atacantes, poucos passes até chegar ao gol. A ideia é fazer logo o gol para recolher as linhas, chamar o adversário e explorar contra-ataques. Esse estilo é motivo de crítica, mas garante uma segurança muito grande ao time, que controla muito bem as partidas e sabe o momento de acelerar e dosar o ritmo.

O tão elogiado elenco palmeirense é muito bem aproveitado pelo comandante, que permite descanso aos principais atletas sem deixar cair o nível. A dupla de zaga mais provável para sábado é formada por Luan e Gustavo Gómez. O paraguaio fez 17 partidas no ano, maior marca do elenco entre zagueiros, com apenas 65% do total, ou seja, foi poupado em nove jogos. Luan ficou um mês lesionado, voltou em março e soma 12 jogos. Qualquer time rende melhor respeitando o tempo de recuperação de seus jogadores.

Gustavo Gómez, um dos símbolos do setor defensivo do Palmeiras — Foto: Cesar Greco/PalmeirasGustavo Gómez, um dos símbolos do setor defensivo do Palmeiras — Foto: Cesar Greco/Palmeiras

Gustavo Gómez, um dos símbolos do setor defensivo do Palmeiras — Foto: Cesar Greco/Palmeiras

A defesa do Santos, hoje, passa muito mais segurança do que passava meses atrás. Goleadas dolorosas para Botafogo-SP (4 a 0) e Ituano (5 a 1) no Paulistão ensinaram a Jorge Sampaoli que o setor precisava de atenção especial, antes de liberar mais da metade do time para atacar.

A estratégia é mais simples de explicar do que de executar: proposição de jogo, zagueiros apoiando além da linha de meio-campo, laterais como alas construtores e superioridade numérica no momento ofensivo. Interessante, mas leva tempo para encaixar. Com o passar dos jogos, os “alunos” do argentino assimilaram o conteúdo e atualmente o time não fica tão exposto. Leonardo Miranda reconhece que o estilo difere muito daquele praticado por Felipão, mas enxerga um ponto comum.

Gustavo Henrique persegue Pedrinho, do Corinthians: santista foi eleito melhor zagueiro do Paulistão, junto com Bruno Alves, do São Paulo — Foto: Marcos RibolliGustavo Henrique persegue Pedrinho, do Corinthians: santista foi eleito melhor zagueiro do Paulistão, junto com Bruno Alves, do São Paulo — Foto: Marcos Ribolli

Gustavo Henrique persegue Pedrinho, do Corinthians: santista foi eleito melhor zagueiro do Paulistão, junto com Bruno Alves, do São Paulo — Foto: Marcos Ribolli

– Os dois estilos têm o mesmo objetivo: não deixar o adversário jogar. O Santos se expõe muito, mas há sempre uma intensidade muito grande nos momentos após a perda da bola, com os jogadores mais próximos atuando para “matar” o mais rápido possível a jogada. O Palmeiras também faz isso, mas prefere recolher as linhas e pressionar só a partir do meio-campo.

O esquema tático com três zagueiros deve ser novamente utilizado no dérbi por Sampaoli. Lucas Veríssimo, Felipe Aguilar e Gustavo Henrique devem formar o trio titular, num 3-4-3 com dois alas. Sendo assim, Veríssimo e Gustavo devem subir pelos flancos até a linha de meio para sair jogando com Victor Ferraz e Jorge. Na hora de defender, no entanto, devem recompor rapidamente.

Ataques: Palmeiras cirúrgico, Santos “metralhadora”

Se o time leva poucos gols, não há motivo para se afobar no ataque. A filosofia de Scolari é a de pressionar nos primeiros minutos para marcar gols e depois explorar contragolpes. Vem dando certo. O Alviverde anotou 13 gols nos 20 minutos iniciais das partidas (32,5%) e outros cinco em contra-ataques (12,5%). Além dessa estratégia, responsável por quase metade dos 40 gols do time em 2019, a efetividade salta aos olhos. A média do Palmeiras em todos os torneios é de um gol a cada 7,87 finalizações.

Palmeiras e Santos: gols, finalizações e efetividade

Finalizações Média fin./jogo Gols marcados Finalizações/gol
Palmeiras (26 jogos) 315 12,1 40 7,87
Santos (29 jogos) 484 16,7 48 10,1

– Se o Santos tem volume, o Palmeiras é cirúrgico. Chega na área e raramente finaliza fora do gol. É um time igualmente objetivo, mas dosa mais as idas ao ataque. E como prefere fazer o gol cedo e jogar sempre no contra-ataque, cria menos chances por jogo, mas as chances criadas em contra-ataque, na teoria, são mais efetivas que as chances criadas com o adversário se defendendo porque há mais espaço e menos jogadores – explica o blogueiro Léo Miranda.

Estratégia exposta, hora de falar dos jogadores. Gustavo Scarpa, depois de ver 2018 se arrastar no imbróglio com o Fluminense, arranjou sequência entre os titulares e correspondeu. É o artilheiro da equipe na temporada, com sete gols marcados, e ainda distribuiu três assistências. Somente Dudu colocou mais companheiros na boa para balançar as redes: seis vezes. Scarpa e Dudu, aliás, são as armas letais do time em bolas paradas e jogadas aéreas. E vieram do alto 19 gols do Palmeiras (47,5%) no ano. A opção de Felipão por centroavantes altos e o bom aproveitamento da mobilização de jogadores dentro da área adversária vão se provando eficazes.

Gustavo Scarpa vive bom momento no Palmeiras, após ano turbulento — Foto: Cesar Greco/Ag PalmeirasGustavo Scarpa vive bom momento no Palmeiras, após ano turbulento — Foto: Cesar Greco/Ag Palmeiras

Gustavo Scarpa vive bom momento no Palmeiras, após ano turbulento — Foto: Cesar Greco/Ag Palmeiras

O Santos, por sua vez, pode ser comparado a uma metralhadora. A primeira posição do ranking de finalizações é do Santos em três competições: Paulistão, Brasileirão e Copa do Brasil. Foram 484 arremates em 29 jogos, uma média de 16,7 por partida, considerada alta. A agressividade ofensiva, que, como vimos acima, deixa espaços na defesa, possui a contrapartida de acuar o adversário, que passa a ser pressionado e bombardeado com finalizações enquanto não dispõe da bola. Léo Miranda esclarece que a mentalidade desenvolvida por Sampaoli lembra a de outro grande treinador: Pep Guardiola.

– É um estilo muito direto. Sampaoli gosta de um time muito agressivo, que sempre busque o gol. Isso pode ser visto no posicionamento dos pontas, sempre abertos, perto da linha de fundo, prontos para receber e partir para cima. O time se organiza para ser objetivo. Laterais por dentro, zagueiros avançados. Como se todo mundo se posicionasse para receber a bola e passar para um lugar determinado. Quase uma teia de aranha. O nome disso é Jogo de Posição, que é aquela filosofia que tanto associamos a Guardiola, etc.

Médias de finalização do Santos em todos os campeonatos de 2019

Fonte: Footstats

Jean Mota assumiu o papel de arco e flecha do time na temporada: é o goleador, com nove gols, e também principal “garçom”, autor de sete assistências. Praticamente todos os atacantes são muito velozes e incansáveis na marcação à saída de bola adversária. O maior exemplo é Derlis González, um dos preferidos do técnico argentino para exercer a função de falso nove. Não há como esquecer as participações de Diego Pituca e Carlos Sánchez, os pulmões do meio-campo. O uruguaio, inclusive, já participou de dez gols em 2019, oito de sua autoria.

O Santos não dispõe de um centroavante de área em seu elenco. Sampaoli deseja Ricardo Oliveira, do Atlético-MG, mas a negociação mais próxima parece ser com Uribe, do Flamengo. Isso não impede, no entanto, que o time marque muitos gols ou se utilize do expediente de bolas aéreas. Em lances pelo alto, o rodízio de finalizadores compensa a falta de um camisa 9: Luiz Felipe, Gustavo Henrique, Rodrygo, Derlis e Jean Mota já marcaram, juntos, oito gols de cabeça.

Jean Mota mostra facetas de artilheiro e garçom na temporada 2019 — Foto: Douglas Magno/BP FilmesJean Mota mostra facetas de artilheiro e garçom na temporada 2019 — Foto: Douglas Magno/BP Filmes

Jean Mota mostra facetas de artilheiro e garçom na temporada 2019 — Foto: Douglas Magno/BP Filmes

Diante do Atlético-MG, na rodada passada, o Palmeiras venceu o confronto entre líder e vice: 2 a 0 fora de casa. Agora, no clássico, é bem possível que os estilos de jogo se encaixem perfeitamente. Se isso ocorrer, quem prevalece: a intensidade do ataque do Santos ou as investidas pontuais (e mortais) do Palmeiras? Saberemos logo mais.

*A equipe do Espião Estatístico é formada por: Caio Tatesawa, Guilherme Maniaudet, Guilherme Marçal, Leandro Silva, Roberto Maleson e Valmir Storti.